Canção para álbum de moça
Drummond
Bom-dia: eu dizia à moça que de longe me sorria.
Bom-dia: mas da distância ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos e dos braços repetia bom-dia
à moça que estava, de noite como de dia,
bem longe de meu poder e de meu pobre bom-dia.
Bom-dia sempre: se acaso a resposta vier fria
ou tarde vier, contudo esperarei o bom-dia.
E sobre casas compactas, sobre o vale e a serrania,
irei repetindo manso a qualquer hora: bom-dia.
O tempo é talvez ingrato e funda a melancolia
para que se justifique o meu absurdo bom-dia.
Nem a moça põe reparo, não sente, não desconfia
o que há de carinho preso no cerne deste bom-dia.
Bom-dia repito à tarde, à meia-noite: bom-dia.
E de madrugada vou pintando a cor de meu dia,
que a moça possa encontrá-lo azul e rosa: bom-dia.
Bom-dia: apenas um eco na mata (mas quem diria)
decifra minha mensagem, deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe, não sente, nessa alegria,
o que há de rude também no clarão deste bom-dia.
De triste, túrbido, inquieto, noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos, na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses ao meu bom-dia: bom-dia!
Como a noite se mudara no mais cristalino dia!
Lindo poema...
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