quarta-feira, setembro 05, 2007



- Que acontecerá se formos por ali?
- Não faço idéia. Vamos.
- Espera.. Talvez seja melhor ficarmos.
- Ficarmos? Que se passa contigo?
- Nada... não se passa nada. Simplesmente.. talvez seja melhor não arriscarmos.
- Arriscar? Mas quem está a falar em arriscar? Não estás farta de estar aqui? Por mim estou cansado de te ouvir aos lamúrios.
- Eu sei que sou um bocado chata. Não quero estar sempre a atazanar o seu juízo. Já me cansa este lugar. Mas não sabemos o que fica para lá.
- E então? Mais um motivo para irmos.
- Pode-nos acontecer alguma coisa. Será melhor que fiquemos aqui.
- Aqui? Não achas que já viste o que tinhas para ver, experimentadoo que tinhas para experimentar? Anda daí, não sejas medrosa.
- Não sou medrosa. Apenas acho que não vale a pena correr riscos,visto estarmos aqui a princípio seguros e tão bem.
- "Tão bem, tão bem". Ora te queixas, ora te acomodas. Não julgas ser já altura de irmos à procura, sem nos deixarmos envolver pelo medo de encontrar coisas novas?
- Sim... não... Ouve-me, não sabemos onde isto vai dar, e sabes sobejamente bem que pelo menos aqui sabemos com o que podemos contar.
- Só não sabemos é com o que não podemos contar. E precisamente por continuarmos indefinidamente neste ponto. Levanta e vamos. Vai ver que não nos acontece nada.
- Como sabes?
- Não sei. Mas também não vou saber se ficarmos aqui. E, sabe-se lá,a mim até me apetecia que me acontecesse alguma coisa. O meu espírito decompõe-se de tédio aqui.
- E se acontece algo de mal? Estás sempre a querer ser diferente dos outros.
- Diferente dos outros? Desculpa lá, acho é que os outros ainda não notaram que são todos diferentes. Até parece que todos gostam de ser iguais, fotocópias em preto e branco de um original. Porra, estou farto desta conversa de vai não vai. Tens medo de quê?
- Talvez de mudar. E vem daí algum mal ao mundo?
- Eu vou, venhas ou fiques.
- Que merda de mania de querer experimentar tudo. Há de chegar o dia em que nada mais te há de te interessar.
- Minha cara, isso são novidades velhas. Aqui, já nada me interessa. Ou antes, interessa-me o que está aqui mas que está escondido. Quando é que tu vais perceber que quero viver a minha vida, não a dos outros?
- Blá blá blá. És do contra, e é tudo. Eu fico. E não é por medo nem por comodismo. Foi aqui que nasci e cresci, que construi meus sonhos e é aqui que se me apresenta o futuro.
- O futuro... é sempre uma boa desculpa. Como o "amanhã será outro dia". Quando será que vai aprender que é no desconhecido que reside o teu futuro, não no que já conheces.
- Não é assim que se contribui para o desenvolvimento da sociedade. Sabe bem disso. Foi assim que te ensinaram, a seguir todos os impulsos que te borbulham no sangue?
- Até parece que o teu é imune a impulsos...
- Claro que não é. Mas temos de ter regras. Caso contrário seria tudo uma confusão, o caos.
- E?! Percebe isto, estou farto da mesma linha de horizonte. Quero ver mais, aprender, mudar, viver.
- Mas tu és um maluco. Não gosta e nem se preocupas com os que ficam.
- O quê? Sempre a mesma conversa... o meu problema é gostar mais do que me é permitido gostar. Como tu dizes "tem de haver regras". Merda para as regras. E se ter vontade de ir por ali é ser maluco, então chamem-me o maior lunático de toda a história da humanidade.
- Não, tu não és maluco. Tens é a mania de achar que todos são iguais a você. És é um belo egoísta. A solidão não é o bicho terrível que tu gostas de pintar. Bem pelo contrário. Dá-te liberdade e espaço. Não sou culpada se não consegues lidar com isso. Não sabes o que perdes.
- Já me conhece há bastante tempo, sabe que além de precisar do meu espaço, também gosto que as outras pessoas tenham o delas.
- O que perco ficando aqui? Achas que ir por ali é o melhor caminho? Vai, vai... e não olhes para trás.
- Pfff... o que eu quero é entrar dentro dos outros e de mim mesmo. Você precisa se te afastar da muralha do castelo para o poderes ver. Você vive submergida num mar de obrigações e de 'tenho' e 'tens' e 'deves' e 'não podes'. E o que você faz somente por tua vontade?
- Tem que haver limites!
- Limites?! Como... Para haver um limite tem de haver um 'cá' e um 'lá'. E esse "lá", por sua vez, também terá os seus limites e será ele próprio um "cá" para um "lá" ainda mais além.
- Acabou. Estou cansada das tuas filosofias baratas. Vai sozinho.
- Vou sozinho. Sentirei a tua falta.
- Eu não. Não posso gostar de uma pessoa que me abandona assim.
- Abandona? Incrível...
- Não. Mil vezes não. E lembre-se do que te digo, eu não posso ir, tente entender, mas não quero te perder...
- Estou cheio disto. Vou-me embora agora. E tenho consciência de que não vou perder nada, pois nada possuo.

Assim, um vai por ali. O outro fica por aqui.
No céu passeavam-se bandos de aves em círculo.
Uma delas largou o bando e seguiu o que foi por ali.
As outras continuaram. Caiu a noite.

"Não acredito em ´FIM´ não se pode viver com algo que não faz sentido que não tem sombra e o que não tem sombra, ou reflexo, não existe, não preciso de visões físicas de sombras, a presença in memoriam basta-me. Se me lembrar de você, se tu se fizeres notar (porque sou muito esquecida) as coisas não acabam."

Autor desconhecido

Nenhum comentário: